
O Outro Lado das Redes chegou aos cinemas brasileiros em 22 de outubro e ainda está em cartaz. Se você saiu da sessão com vontade de entender de onde vem aquele jeito de escrever, ou se ainda não foi e quer chegar preparado, a obra de Aaron Sorkin no cinema cabe em sete filmes.
São sete porque é essa a conta: cinco roteiros que ele escreveu para outros diretores e três em que ele mesmo dirigiu, com Os 7 de Chicago entrando nas duas listas por ser roteiro original dele. A lista abaixo traz ano, direção, por que cada um está aqui e onde assistir no Brasil.
Um aviso antes de você montar o fim de semana: dos sete, só quatro estão em assinatura comum. A Rede Social e Uma Questão de Honra estão no HBO Max, Os 7 de Chicago está na Netflix e Os Ricardos está no Prime Video. Os outros três cobram à parte, e a gente diz em cada bloco quanto era no dia da apuração, 27 de outubro.
Antes da lista, vale saber o que você vai reconhecer de um filme para o outro. O primeiro traço é o diálogo em velocidade: os personagens pensam falando, se interrompem e discutem no ritmo de quem não tem tempo de ser gentil. Ninguém fala pouco num roteiro dele.
O segundo é o gosto por um recinto fechado em que alguém tem de provar algo. Tribunal, sala de depoimento, bastidor de lançamento, mesa de pôquer, estúdio de televisão. A ação acontece em palavra, e a sala é a arena.
O terceiro é a estrutura. Sorkin raramente conta a história em linha reta: ele põe um presente tenso no primeiro plano e deixa o passado chegar em pedaços, para que você já saiba o resultado e preste atenção no como. A Rede Social e Steve Jobs são os exemplos mais claros, e os dois estão nesta lista.
A ordem que a gente propõe não é cronológica. Ela começa pelo filme que conversa direto com o que está em cartaz, volta para a origem do método e depois segue do roteirista para o diretor. Se preferir ver nascer antes de ver amadurecer, comece pelo número 2 e trate o número 1 como final.
Onde ver: assinatura no HBO Max, e também pelo HBO Max como canal na Amazon. Direção: David Fincher.
É por aqui que a maratona começa, porque é com este filme que O Outro Lado das Redes conversa. Sorkin adaptou o livro de Ben Mezrich sobre a fundação do Facebook e escolheu contar a história de dentro de dois processos judiciais, com as audiências no presente cortando o que aconteceu em Harvard.
O resultado rendeu a ele o Oscar de melhor roteiro adaptado, numa noite em que o filme levou também trilha sonora, de Trent Reznor e Atticus Ross, e montagem. Foram oito indicações no total, incluindo melhor filme e direção para Fincher.
Repare na cena de abertura, no bar, antes de qualquer logotipo. São poucos minutos de conversa entre duas pessoas e eles já estabelecem tudo: como o protagonista pensa, como ele perde as pessoas e qual o tipo de ferida que vai mover o resto. É a melhor amostra do método em estado puro que existe na filmografia dele.
Para quem é: todo mundo que vai ver ou já viu o filme em cartaz. Se você só tem uma noite livre para esta maratona, é este o filme.
Onde ver: assinatura na Looke e no HBO Max. Direção: Rob Reiner.
Aqui está a origem. Sorkin adaptou para o cinema a própria peça, que havia estreado na Broadway em 1989, e o filme virou seu primeiro grande trabalho em Hollywood. Dois fuzileiros são acusados pela morte de um colega na base de Guantánamo, e um advogado militar sem vontade de ir a julgamento acaba levando o caso ao tribunal.
Tom Cruise é o advogado, Demi Moore a oficial que o empurra e Jack Nicholson o coronel do outro lado, num papel que lhe rendeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante. O filme teve quatro indicações, incluindo melhor filme, e não levou nenhuma.
O que vale observar é como quase tudo de importante acontece em pergunta e resposta. A sequência final no banco das testemunhas é provavelmente o diálogo mais citado da carreira dele, e já traz o desenho que vai se repetir: alguém que precisa arrancar a verdade de alguém que acha que tem direito de guardá-la.
Para quem é: quem quer ver o método antes de ele virar marca. É também o mais fácil de assistir em família, porque é o mais clássico em forma.
Onde ver: assinatura só pelo Sony One, que é canal pago dentro da Amazon. Aluguel a partir de R$ 6,90 na Amazon no dia da apuração. Direção: Bennett Miller. Roteiro: Aaron Sorkin e Steven Zaillian.
Este é o Sorkin mais contido da lista, e por isso ele merece atenção. Billy Beane, interpretado por Brad Pitt, dirige um time de beisebol pobre e decide montar o elenco por estatística em vez de olho clínico, contra a opinião de todos os olheiros da casa. Jonah Hill é o economista que faz as contas.
O filme nasceu do livro de Michael Lewis e teve seis indicações ao Oscar, entre elas melhor filme, ator para Pitt, coadjuvante para Hill e roteiro adaptado. Não levou nenhuma.
Por que está aqui: porque mostra que o estilo não depende de personagem falante. Aqui o diálogo serve a uma discussão sobre decidir com dado contra decidir com intuição, e o filme tem a paciência de deixar o silêncio entrar nas cenas de escritório. Se você acha que não gosta de filme de esporte, este é o teste.
Para quem é: quem trabalha com decisão e gosta de ver gente mudando de método no meio do caminho. Não precisa entender nada de beisebol.
Onde ver: nenhuma assinatura no Brasil. Aluguel a partir de R$ 6,90 na Amazon e R$ 9,90 na Apple TV no dia da apuração. Direção: Danny Boyle.
O mais ousado em forma, e o mais difícil de alcançar. Em vez de contar uma vida inteira, Sorkin escolheu três momentos: os minutos antes de três apresentações de produto, em 1984, 1988 e 1998. Cada ato se passa quase em tempo real nos bastidores, com as mesmas pessoas voltando para cobrar as mesmas contas.
Michael Fassbender faz Jobs e Kate Winslet a executiva Joanna Hoffman, os dois indicados ao Oscar. O roteiro partiu da biografia escrita por Walter Isaacson, e a decisão de recortar três bastidores em vez de narrar a trajetória foi do próprio Sorkin.
Funciona como peça de teatro em três atos, e é aí que está a graça. A plateia nunca vê a apresentação, só o corredor. Quem gosta de estrutura vai sair com a sensação de ter visto o truque sendo montado na frente dos olhos.
Para quem é: quem curtiu a forma de A Rede Social e quer a versão mais radical dela. Aviso honesto: é o único da lista que não está em assinatura nenhuma, então entra no seu fim de semana só se você aceitar alugar.
Onde ver: assinatura pelo Diamond Films, canal pago dentro da Amazon. Aluguel a partir de R$ 9,90 no dia da apuração. Direção: Aaron Sorkin.
A virada da maratona. Depois de 25 anos escrevendo para outros diretores, Sorkin assume a câmera pela primeira vez, e escolhe uma história de narração acelerada: Molly Bloom, esquiadora olímpica que não chegou aos Jogos e acabou organizando as mesas de pôquer clandestinas mais caras dos Estados Unidos.
Jessica Chastain é Molly e Idris Elba o advogado que pega o caso quando o FBI aparece. O roteiro, adaptado do livro de memórias dela, foi indicado ao Oscar.
O que dá para notar é que ele dirige como quem escreve: a voz over não para, o filme explica as regras do jogo na velocidade de quem confia que você acompanha e a montagem corta em cima da fala. Alguns acham demais, e é uma crítica justa. Mas é o único filme da lista em que você vê o autor testando o que acontece quando ninguém está lá para segurar o ritmo dele.
Para quem é: quem quer ver o momento exato em que o roteirista se torna diretor.
Onde ver: Netflix, inclusive no plano com anúncios. Direção: Aaron Sorkin.
O mais fácil de alcançar da lista e o melhor par de leitura com o número 2. São 28 anos entre os dois filmes de tribunal, e vale ver um atrás do outro. Aqui o julgamento é o dos manifestantes presos durante a Convenção Democrata de 1968, em Chicago, num processo que virou símbolo do uso do tribunal como palco político.
Sacha Baron Cohen, Eddie Redmayne, Mark Rylance e Frank Langella estão no elenco, e o filme teve seis indicações ao Oscar: melhor filme, roteiro original, coadjuvante para Cohen, fotografia, montagem e canção original. Não levou nenhuma.
Por que está aqui: é o Sorkin diretor já com a mão firme, e é também o filme em que o método encontra o assunto perfeito. Um tribunal em que ninguém está interessado na verdade, só em quem fala mais alto, é praticamente o cenário que ele passou a carreira procurando.
Para quem é: quem não quer gastar nada além do que já paga. Se a sua maratona vai ser curta, junte este com A Rede Social e você já tem o essencial.
Onde ver: Prime Video, inclusive no plano com anúncios. Direção: Aaron Sorkin.
O fecho natural, porque é o mais sobre o ofício. O filme acompanha uma semana de produção de I Love Lucy, o programa que fez de Lucille Ball a mulher mais famosa da televisão americana, enquanto a protagonista enfrenta uma acusação política e um casamento em crise.
Nicole Kidman é Lucille, Javier Bardem o marido e parceiro de cena Desi Arnaz, e J.K. Simmons um dos atores do elenco fixo. Os três foram indicados ao Oscar, em atriz, ator e coadjuvante.
É o filme em que Sorkin olha para gente que faz o que ele faz: escrever, ensaiar, discutir uma piada na mesa e descobrir no meio da semana que o texto não funciona. Depois de seis filmes sobre pessoas brilhantes em salas fechadas, ele enfim entra na sala onde o texto é escrito.
Para quem é: quem está tratando a maratona como estudo, e quem gosta de bastidor de televisão.
A lista tem ordem, mas você não precisa ver tudo. Aqui vão três caminhos, de acordo com o seu tempo e com o que você já paga de assinatura.
Só uma noite, sem gastar nada: A Rede Social, no HBO Max. É o filme que conversa direto com o que está em cartaz e o melhor resumo do que ele sabe fazer.
Um fim de semana, sem gastar nada: A Rede Social no sábado, Os 7 de Chicago no domingo. Os dois juntos dão o arco inteiro, do roteirista premiado ao diretor maduro, e os dois estão em assinatura comum. Se sobrar tempo, Uma Questão de Honra fecha o triângulo dos tribunais, também sem custo extra.
A maratona inteira, aceitando alugar: siga a ordem dos sete blocos acima. Reserve os três pagos à parte para o fim, quando você já souber se vale: Moneyball, Steve Jobs e Jogo da Alta-Roda somam o preço de dois ingressos de cinema, e Steve Jobs é o que mais compensa por ser o mais diferente de todos.
Preciso ver A Rede Social antes de O Outro Lado das Redes? Ajuda bastante, e é a razão pela qual ele é o número 1 desta lista. O filme em cartaz volta ao mesmo assunto, e sair da sessão tendo visto o primeiro muda o que você repara.
Dá para fazer a maratona só com as assinaturas que eu já tenho? Com quatro dos sete, sim, se você tiver HBO Max, Netflix e Prime Video. Moneyball e Jogo da Alta-Roda só aparecem em assinatura por canais pagos dentro da Amazon, e Steve Jobs não está em assinatura nenhuma no Brasil.
Os preços de aluguel mudam? Mudam, e com frequência. Os valores aqui são os do dia 27 de outubro, apurados filme por filme. Antes de alugar, confira na loja, porque promoção e reajuste acontecem sem aviso.
Por que A Guerra de Charlie Wilson não está na lista? Porque a gente não conseguiu confirmar onde ele está disponível no Brasil, e a regra da casa é não prometer o que o leitor não vai encontrar. A mesma coisa vale para os roteiros dele dos anos 90 que não estão em catálogo por aqui.
Tem spoiler no texto? Não. Cada bloco traz só a premissa e o que esperar da forma. Dois dos filmes são baseados em julgamentos reais, então o desfecho é histórico e está em qualquer enciclopédia, mas a gente não conta.
Salve esta maratona na sua watchlist do Clube Cine e marque os que você já viu. Assim, quando sobrar uma noite, é só abrir e pegar o próximo da fila em vez de perder meia hora escolhendo.
E se você for ver O Outro Lado das Redes ainda em cartaz, faça o teste: assista A Rede Social antes e conte no Cine Chat o que mudou na sua leitura do filme novo.