Thriller dirigido e estrelado por Ben Affleck chega à Netflix com IA na pós-produção. O diretor, que vendeu sua empresa de IA à plataforma, não diz onde.

Ben Affleck usou inteligência artificial "para muitas coisas" em Sobrevivência, thriller que ele dirige, coescreve e estrela e que chega nesta sexta (9) à Netflix, inclusive no Brasil. Só não conta quais. A admissão foi feita na semana passada, em evento da Bloomberg, e virou o assunto da estreia.
No filme, Affleck vive um candidato a prefeito de Los Angeles que tem o filho sequestrado e precisa, ao lado da esposa (Kerry Washington), levantar o dinheiro do resgate em poucas horas. Gillian Anderson e Steven Yeun completam o elenco principal. É a volta do diretor ao thriller policial urbano, terreno de Medo da Verdade (2007) e Atração Perigosa (2010).
Questionado sobre onde a IA aparece, Affleck desconversou com uma analogia: revelar isso seria como um mágico avisar, antes do número, que tem outro coelho escondido ali embaixo. Segundo ele, quem faz cinema trabalha para sustentar a ilusão de realidade, e apontar o truque estragaria o show.
O que ele aceitou detalhar foi o tipo de uso. Disse que a ferramenta entrou principalmente na pós-produção, para ganhar velocidade e fazer coisas que de outro jeito não seriam possíveis. Na première, contou à The Hollywood Reporter que segue algumas regras: não usar sistema treinado com obra protegida por direito autoral, não usar nada criado a partir do trabalho de um colega ou de alguém que admira e nunca fazer "pessoas falsas" nem substituir ninguém.
Affleck não é só um diretor opinando sobre tecnologia. Em 2022, ele fundou a InterPositive, empresa que desenvolve ferramentas de IA para filmagem e pós-produção. Em março deste ano, a Netflix comprou a startup, absorveu a equipe de 16 pessoas e transformou Affleck em consultor sênior. Em julho, a plataforma informou ter pago US$ 587 milhões pelo negócio.
A proposta da InterPositive é diferente da IA que gera vídeo a partir de um comando de texto. O sistema aprende com o material filmado da própria produção e ajuda em tarefas como reiluminar um plano, ajustar a cor, mixar o som ou cobrir um plano que faltou na montagem. A Netflix oferece a tecnologia aos seus parceiros criativos e não pretende vendê-la no mercado.
Aqui entra a nossa ressalva. As regras que Affleck descreve são razoáveis e vão na direção certa, e um filme feito por gente, com IA no acabamento, não deveria assustar ninguém. Mas a analogia do mágico perde força quando o mágico também é quem vendeu a cartola para o dono do teatro. Se o uso é ético e o filme é, nas palavras dele, "muito humano", mostrar onde a ferramenta entrou seria o melhor argumento a favor dela.
Sem essa informação, quem assiste fica tentando adivinhar, cena a cena, o que é truque e o que é filmagem. E isso distrai mais do que qualquer coelho escondido.
Sobrevivência já está no catálogo da Netflix. Vale assistir e tirar a sua própria conclusão: se você não perceber onde a IA entrou, talvez Affleck tenha razão. Se perceber, a conversa fica ainda mais interessante.
Salve Sobrevivência na sua watchlist do Clube Cine para não perder de vista. E, se quiser chegar ao filme com o repertório em dia, monte a maratona do Affleck diretor com Medo da Verdade e Atração Perigosa: dá para comparar o quanto o estilo dele mudou, ou não, na era da IA.